Ilegal, imoral ou engorda?

Ilegal, imoral ou engorda?

Estávamos, eu e minha esposa, entrando num shopping no final de semana passado. Demos uma volta em busca de uma vaga até que diminuímos próximos de uma movimentação de pessoas em volta de carros, que indicava o possível surgimento de uma vaga. Contudo, alguns estavam chegando ao shopping como nós e a única pessoa que estava saindo, retirou lentamente o carro de uma vaga reservada a idosos. Esta pessoa, gentilmente disse, dirigindo-se a minha esposa que estava mais próxima “espere aí que libero a vaga e vocês poderão entrar. Ela, um pouco sem graça de precisar responder ao senhor (que não devia ter mais do que 50 anos), mas convicta de seu posicionamento, disse “obrigada, mas vamos dar mais uma volta, por que esta vaga é para idosos”. A pessoa saiu sem dizer mais nenhuma palavra. E, rapidamente, em seu lugar, entrou um outro carro trazendo um casal ainda mais jovem.

Imaginei essas pessoas respondendo, caso tivessem parado para isso. Talvez dissessem que estavam com pressa, que só parariam “rapidinho” ou ainda, que olharam em volta e que não viram ninguém nessas condições e que, só por isso, entraram.

Há sempre um bom motivo para se fazer algo de bom e de ruim. Dificilmente, ouço algo do tipo “entrei mesmo e não estou nem aí se estou atrapalhando alguém”. Somente na novela das nove é que o vilão cisma com o mocinho e passa a persegui-lo de forma gratuita, somente pelo prazer de vê-lo se estrepar. À propósito, sobre isso a PNL propõe algo interessante. Ela diz que todo comportamento tem por detrás uma intenção positiva. Isso quer dizer que mesmo o vilão da novela (embora pareça) não faz o que faz gratuitamente. Ele busca defender-se do que considera uma ameaça aos seus planos. É pura auto preservação. Ah, Sérgio, é isso lá é correto!? Pode até não ser, mais é um excelente motivador para aquele comportamento. Ninguém disse que a intenção positiva precisaria ser uma nobre intenção. E, ninguém disse também que por ser “positiva” a intenção, precisaria resultar num comportamento positivo. Haja vista o exemplo do estacionamento do shopping. Acredito que, para essas pessoas, suas razões são boas e, suficientemente, válidas para impulsioná-los para tal comportamento. Cabe mencionar que meu objetivo com esse texto não é julgar pessoas, mas propor uma reflexão importante sobre um acontecimento muito atual.

Estamos vivendo tempos de séria crise ética! Onde parece que cada vez mais as pessoas estão voltadas ao atendimento de suas necessidades pessoais e profissionais.

No fórum pessoal tenho visto questões bastante sérias. Como num treinamento meu em que falava de assertividade e dei como exemplo uma situação em que precisei sinalizar a pessoa sentada a minha frente num ônibus para erguer seu banco que estava me apertando. Uma jovem ficou incomodada e não conteve seu desejo de comentar “mas se o ônibus oferece um banco que reclina assim, não é certo eu utilizar?… A pessoa atrás é que deve se mudar se estiver incomodada…”. Disse que passou por situação semelhante naquela semana. E, por fim, acrescentou, que se fosse essa pessoa da minha história ela não teria erguido o banco. Então, qual é o limite para minha atuação na sociedade? O quanto é legítimo o movimento de alguém que busca atender às suas necessidades particulares, mesmo em detrimento aos interesses de outros?

Agora no âmbito profissional, percebo que este comportamento tem um potencial ainda mais danoso. Visto que pode prejudicar um número maior de pessoas. Profissionais que não veem problema em puxar o tapete de alguém conhecido para alcançar um objetivo pessoal, têm grande potencial de não se sentirem constrangidos em vender um produto alimentício fora da validade, estragado, misturado a substâncias cancerígenas ou a algum tipo de produto não comestível.

Como não participamos dos pensamentos das pessoas, provavelmente, não saberemos o que motiva algumas delas a terem comportamentos tão nocivos aos seus semelhantes. O fato é que acontece. E, como não acredito que grandes questões éticas nasçam do tamanho em que se revelam, vale sempre lembrar que é uma linha muito tênue que separa um comportamento ético de outro menos nobre. E, para finalizar quero citar o mestre Mário Sérgio Cortela que numa palestra mencionou Manuel Kant (Filósofo alemão séc. XVIII) “Tudo que não puder contar como fez, não faça”. E, ele complementa dizendo “porque se há razões para não contar, essas são as razões para não fazer”. Isso, vale como um exame de consciência frequente a ser feito pelas pessoas sempre que estiverem diante de um dilema como entrar numa vaga a qual ela não tem direito, prejudicar um colega de trabalho ou autorizar a produção em larga escala de produtos impróprios para o consumo.